Serão as pessoas idosas a colocar(-se)-nos em risco em tempos de COVID-19?

– Estou sim, bom dia!

Olá, eu sou da Entre Idades e estou a ligar-lhe porque estamos preocupados consigo, devido a esta pandemia que se está a passar no nosso país e no mundo.

Como tem passado?

– Ohh menina… muito obrigada, mas eu não sou velho e sou perfeitamente capaz de fazer as minhas coisas sozinho! Para além disso quero manter a minha independência!

– Sim, sim, eu tenho uma filha, mas ela está com a minha neta e não vou incomodá-la com essas coisas, a mercearia é já aqui, e elas também precisam de se proteger!

– Sim, sim, eu lavo as mãos, não se preocupe que eu sei isso tudo!

– Ah, obrigada! Não estava nada à espera! O meu marido até me falou de vocês e disse que vocês ligavam, mas eu não acreditei! Sabe, ele acredita em tudo o que lhe dizem.

Nesta fase, em que todos temos tentado lidar com a Pandemia COVID-19 o melhor que conseguimos, assistimos recentemente a várias mensagens, em diversos locais – publicações, artigos e reportagens na televisão – a dar conta que as pessoas idosas têm resistido ao confinamento em casa.

Sabemos que as pessoas idosas são um grupo de risco, acreditamos que elas também o saibam, mais que não seja pelas várias notícias que dão conta que eles (idosos) são um grupo de risco. Mas o que as leva a resistir!?

Solidão, Medo, Angústia, Tristeza, Ansiedade, estes são os sentimentos de alguém que criou uma família que agora não pode abraçar, de alguém que confortou, que limpou lágrimas, e que agora se sente inconsolável, de alguém que ajudou a construir caminhos e que agora se vê perdido.

Como julgar alguém que preservou valores como a família, a amizade, a solidariedade, a gratidão perante os Homens e a Natureza, a liberdade… sim, a maior parte de nós nasceu livre… Sabemos realmente o que isso significa e o quanto vale? Porquê condenar quem já percebeu que pode estar em perigo e que vive em sofrimento por não saber se ainda tem tempo para voltar a ser livre? Serão mesmo estas as pessoas que em fins de semana de sol atravessam de carro, as cidades e enchem as praias? Serão mesmo estas as únicas pessoas que nos estão a colocar a todos em risco?

– Já viu menina, eu vou à janela e só vejo pessoas na rua! Não pensam nos outros! Fique descansada que eu só saio mesmo quando é preciso. Sim, claro, lavo muitas vezes as mãos, sempre foi assim! … Sim, já disse à minha filha que não saio mais. O meu genro veio aqui ontem e encheu-me o frigorífico. Ele nem entrou, deixou-me as coisas à porta e é melhor assim para todos.

 – Sabe, já não saio de casa há cinco dias e isto está a deixar-me muito triste, ainda bem que ligou. Já passei por tanta coisa e agora chego a esta idade e estou aqui nesta situação.

– Sabe, estou com muito medo, eu preciso muito de falar e não tenho com quem falar

– Ainda ontem a minha neta disse: Avó, eu amo-te! E olhe, até abracei o telefone.

O momento exige reinvenção e criatividade na forma como se chega a todos aqueles para os quais trabalhamos diariamente – as pessoas idosas. O encontro presencial, dá lugar agora ao encontro mediado por um telefone ou telemóvel. Nele reside o mesmo valor e importância: continuar a cuidar da nossa identidade nacional – as pessoas idosas, as que sempre cuidaram dos seus e lhes estenderam as mãos, explicaram as melhores formas de superar adversidades e reforçaram conquistas.

E, quando o telefone toca, há sempre uma voz que se ouve. A Entre Idades, na voz de cada membro, apresenta-se. Muitos já a conhecem. Outros recordam-se rapidamente do nome. É a Entre Idades.

Devido a este constrangimento que vivemos, suspendemos todas as ações presenciais com pessoas idosas e temos vindo a contactá-las telefonicamente para:

  • Aferir e sinalizar a necessidade de ajuda nesta fase (necessidade de compras, medicamentos, etc.);
  • Avaliar a perceção de como cada um está vivenciar este momento. Por exemplo, se sente ansiedade, medo, aborrecimento, tristeza ou irritação e ajudar na gestão destas emoções/sentimentos;
  • Ajudar a encontrar para cada caso as melhores atividades a serem realizadas em casa, de modo a promover a estimulação física, cognitiva e lúdica;
  • Evitar a solidão, dar suporte emocional e psicossocial. Através de um contacto regular mantemos a aferição constante das necessidades, avaliamos como cada pessoa está e garantimos uma proximidade com uma pessoa (ou no máximo duas) que lhe liga regularmente, e
  • Sensibilizar para adoção das recomendações das autoridades de saúde. Por exemplo, não sair de casa, estar atento aos sintomas e efetuar uma boa higiene das mãos.

– Sabe que nesta fase é muito importante lavar muitas vezes as mãos, manter-se afastado das outras pessoas e… evitar sair de casa…

Sim, esta, deve ser, sem dúvida uma das frases mais difíceis de ouvir para quem chega a uma fase da vida em que já se fizeram grandes e duras conquistas e cujo gozo se prevê poder acabar a qualquer momento.

A recomendação que tem tido mais resistência é a de do não saírem de casa. Acreditamos que esta dificuldade de cumprir esta orientação está relacionada com diversos fatores, nomeadamente, as características de personalidade, as experiências anteriores parecidas, a diminuição do medo associado à morte, à vontade de manterem as rotinas e capacidades psicomotoras, pois sabem que se pararem começam a perder as mesmas e a recuperação é demorada. Adicionalmente, as pessoas idosas gostam de fazer passeios na rua como que uma referência temporal no seu dia adia, habitualmente têm o seu dia com uma determinada rotina, isso orienta-os.

– vou buscar pão… mas não se preocupe … a padaria fica do outro lado da rua; tenho o hábito de ir ver a novela a casa da minha vizinha que mora à frente da minha porta; vou buscar o jornal; tenho umas análises para ir levantar; tenho que ir à farmácia, não é que me falte nada mas tenho que ir; vou almoçar fora porque sempre o fiz.

A rotina organizada sofreu subitamente um trambolhão. Tudo demasiado veloz, sem aviso nem preparação. Como qualquer um de nós, temos necessidade de controlar a nossa vida, nem que seja a nossa rotina e ter objetivos reais e diários. Temos todos que reaprender a nova forma de proteção.

Para além disso, a imprevisibilidade e a incerteza do tempo atual causam uma ansiedade e angústia, normais quando moderadas e que têm que ser monitorizadas para haver um apaziguamento de cada um.

Estou muito preocupada … não durmo bem; estou preocupada com a minha filha que tem que ir todos os dias trabalhar… ela é muito nova… e a mim se me acontece alguma coisa.

Ou o facto do vírus, essa ameaça bem real ser invisível e, portanto, qualquer pessoa tende a ser um alvo fácil.

– Sentia-me mais seguro na guerra do que agora. Na guerra tinha uma arma para me defender e via o inimigo. Agora não; Isto é uma guerra que não tem rosto.

Adicionalmente, tende a instalar-se um nível acrescido de desmotivação e sedentarismo afetando tanto o domínio emocional, motor e cognitivo. Cada telefonema é único, poderá ir desde a palavra amiga, a escuta, a compreensão, a sugestão de exercícios e atividades ou apenas um “Bom dia” animado.

A sensibilização, a escuta e a ajuda a reorganizar a rotina é essencial para as pessoas idosas, evitando assim um avolumado de sentimentos negativos. É necessário concretizar algo diariamente através de atividades geradoras de bem-estar: atividades domésticas, cuidar das plantes, atividades mais culturais (ler ou ouvir música) e atividades motoras.

– Mesmo estando em casa todo o dia, faço a mesma rotina. De manhã, visto-me sempre, não gosto de andar de camisa de dormir; vou arrumar uma gaveta cada dia, vou fazer croquetes para o meu neto que ele gosta muito; cuidar das plantas troquei os vasos das plantas e até falei com elas; procuro nunca estar parada, porque ficar parada o dia todo é pior, fico mais presa dos movimentos.

A imprevisibilidade anda de mãos dadas com a esperança, com a crença. É preciso viver um dia de cada vez, o melhor que se conseguir, mantendo contacto com os seus.

–  Vai-se andando até ver, tudo isto é uma incógnita. Andamos à conta de Deus.

Diariamente colecionam-se lembretes de abraços e beijos…

Tenho tantas saudades do abraço dos meus filhos; faz-me falta essa companhia; agora falo com o meu filho/filha pela janela; Também me faz falta a vossa companhia aqui.

– Oh menina, oiço-a sorrir e já sei quem é, às vezes até consigo imaginar a sua cara; sabe aquelas ideias que me deu, têm ajudado muito, tenho feito aqui em casa alguns dos exercícios que fazia quando ia à ginástica; Obrigada, nunca ninguém me fez essa sugestão e por acaso eu até gosto de fazer meditação, acalma; Sinto falta de ir beber o meu cafezinho mas nem tudo é mau, a minha rua está mais sossegada. Até consigo ouvir os passarinhos, chega a ser mágico. Agora todos dias parecem domingo de manhã!

Comprometemo-nos, diariamente, em investir em cada chamada telefónica, para a tornar única. Porque o tempo de cada contacto é um tempo individual de cada um. E nele, tantas emoções exteriorizadas, silêncios respeitados e vidas partilhadas. Cada contacto é único.

 

Iremos continuar a manter este posicionamento até ser possível o retorno à vida habitual.

 

Em duas semanas, sabia que:

  • contactamos 190 pessoas idosas, com uma média de idades de 75 anos;
  • realizamos 716 contactos de proximidade, numa média de 49 contactos por dia;
  • alguns utentes são contactados diariamente ou mais que um vez por dia, sempre que avaliamos ser necessário;
  • 142 pessoas têm as necessidades asseguradas;
  • 42 pessoas precisam de ajuda (para a compra de alimentos ou ida à farmácia) e encontram-na na família, vizinhos, amigos ou outra instituição;
  • 2 pessoas precisaram da nossa ajuda nas compras de alimentação e 1 pessoa ajuda na configuração do tablet para poder falar com a família por videochamada;
  • na maior parte dos casos, as principais ações foi dar suporte emocional e psicossocial, fornecer atividades e aconselhar para as recomendações das autoridades de saúde;
  • 150 pessoas respeita o isolamento social voluntário e 159 pessoas tenta ocupar o seu tempo com atividades em casa;
  • no decorrer dos contactos, verificamos que 50 pessoas sentem-se preocupadas ou apreensivas, 10 zangadas, com tristeza e solidão, 6 sentem-se ansiosas, com medo ou angústia e 4 pessoas desvaloriza a situação (nos dados anteriores eram 20), 47 pessoas sentem-se tranquilas e 28 conformadas ou com esperança.

 

Vamos ser todos agentes de saúde pública.

Vamos olhar pelos nossos.

Estamos juntos.

 

Esta atividade insere-se no âmbito Lxiis+, um projeto Entre Idades e que conta com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.

LXIIS+

logotipo CML
Com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa

 

 

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