Como as pessoas idosas (re)aprendem a viver em tempos de Pandemia

O que fazer e como fazer? Com quem falar? Quando isto tudo vai acabar?

Nos últimos tempos já todos nos questionámos sobre isto, cada um terá a sua resposta! Como cada resposta é única e pode ensinar algo a outras pessoas, decidimos reunir algumas das coisas que as pessoas idosas que acompanhamos nos dizem, nesta fase que é diferente para todos enquanto membros da sociedade, avós, netos, pais filhos e amigos.

Viaje connosco neste mundo de aprendizagens que as pessoas idosas têm para nos oferecer, baseadas nas suas experiências de vida.

Nós já aprendemos muito!

 

Como tem ocupado o seu dia-a-dia?

– Este mês fiz anos. Os meus filhos vieram cá e trouxeram-me um bolo, eles no corredor e eu no quarto. Mais um aniversário diferente de todos os outros, mas vivido com amor.

– Há dias em que a preguiça é maior que eu. Mas também é nesses dias que decido fazer coisas de que gosto e que têm significado para mim. Por exemplo, quando era catraia, na minha casa fazia-se pão 1 vez por semana e tinha de durar e chegar para todos. Lembrei-me disso e pensei que era engraçado fazer como era miúda. Fiz o fermento com água, farinha e sal. Amassei o pão, ainda me lembro muito bem de como fazer. E nasceu um pão alentejano. Digo-lhe que está muito bom.

– Acredita que ando a fazer as limpezas a fundo? Aquelas que só faço no verão? Tiro tudo, escolho o que quero dar, o que quero aproveitar, limpa-se e volta-se a arrumar. Já pensei em tudo. Aproveito agora para limpar a casa e no verão posso passar mais tempo na terra ou nos passeios.

– Tenho andado entretida com as minhas pinturas e fazer arrumações, limpezas. Em casa há sempre alguma coisa para se fazer.

– Agora tenho o dia mais ocupado que antes. Como a empregada não vem, todos os dias é uma roda viva, cozinho, lavo e trato da roupa, limpo, e cuido do meu marido. Mas é sagrado, todos os dias, vou ao quintal e falo com as minhas árvores. Também gosto muito de pintar, não sei lhe dizer bem, estados de alma. E o que eu não abdico mesmo, é de ler um pouco à noite sozinha. Preciso mesmo, quase tão importante como o ar que respiro.

 

Como se tem sentido?

– Não tem sido fácil, faz-me falta ir à ginástica e à hidroginástica. Acordo mais tarde, para o dia ser mais curto. Mas falo todos os dias com os meus filhos, pelo telefone ou por videochamada. Ainda ontem estufei um 1,5kg de carne de novilho para fazer croquetes. O meu neto gosta muito, e quando vem cá trazer-me as compras aproveita e leva os croquetes. Já dizia um escritor que cozinhar é uma forma de amor. E, nesta fase têm que se reinventar outras formas de amor.

– Sinto que varia muito. Há dias em que me sinto bem e a vida é leve. Há dias em que me sinto menos bem e a cama é a escolha. Acho que o tempo contribui muito. Mas depois penso “Quando era nova não deixava de fazer a minha vida porque chovia, caía granizo ou faziam 40 graus. Então agora também não posso deixar de fazer só por estar em casa”.

– Nos últimos dias tem chovido. Com o tempo cinzento e chuvoso parece que nos sentimos mais tristes.

– Sempre fui uma pessoa alegre e para a frente. Agora não será diferente. Tenho de ficar em casa? Ora bem, fico. Faço crochet até acabar a linha, costuras até não haver mais bainhas e rezo para que Deus se mantenha perto de nós. Vai tudo passar.

– Uns dias sinto-me mais animada, noutros vou-me mais abaixo. Não me faz bem ver tantas notícias. Tento distrair-me e não pensar muito nisso, mas por vezes não é fácil.

 

Como a Entre Idades o/a tem ajudado nesta fase?

– Apareceu-me um problema no dedo da mão. Como combinado convosco, liguei para a Médica de Família. Contactei-a e já estou a tomar a medicação. Sinto-me grata: Que Deus nosso Senhor vos abençoe e regue por cima de vós a sua bênção, que o vosso carinho e cuidado não tem preço.

– Os meus filhos diziam-me para eu escrever a minha autobiografia, mas eu acho que a minha memória já não é o que era e sempre achei que não seria capaz. Através das nossas conversas, e do seu impulso em escrever diariamente um excerto ou uma pequena história, já sinto necessidade e simultaneamente vontade de escrever. E, sinto necessidade também de procurar contextualizar historicamente o que foi acontecendo. Os meus filhos ainda não sabem. É uma surpresa. Todos os dias anseio o nosso telefonema para partilhar consigo mais um pouco desta história.

– A menina sabe que devido aos meus problemas de saúde, tenho muita dificuldade em dormir. A médica ajustou a medicação e disse que depois desta situação passar, avaliaremos a situação. Mas olhe com a sugestão que me deu, de dormir com mais uma almofada em baixo, até dormi melhor.

– Olhe que no início disse que não precisava de ligar. Mas agora, depois de tanto tempo fechada, é uma alegria quando o telefone toca. Seja a menina, seja a minha filha, sabe sempre bem falar e aperceber-me que apesar de estar sozinha nesta casa, não estou sozinha no mundo. Às vezes parece, mas depressa limpo isso da cabeça.

– Ouve-se muita coisa na televisão. Muitas informações ao mesmo tempo e, para mim, é muita confusão. Posso fazer-lhe algumas perguntas sobre coisas que não percebi? Posso sair de casa ou vou ser presa? Devo usar máscara? Acha que se lavar as luvas com lixívia e meter a secar posso usar novamente?

– Não podemos sair de casa, mas hoje já fiz a minha ginástica. Todos os dias tenho que subir e descer as escadas. Se não faço isso, as minhas pernas queixam-se.

– Hoje sou eu a ligar-lhe a si. É só para lhe dizer que está tudo bem comigo. Fiz uma sopa com os legumes que a minha filha me trouxe e já subi as escadas e levei as mãos.

– Hoje tive que ir a uma consulta ao médico. Fui com o meu neto. Correu tudo bem. Quando caminhávamos para casa, ele perguntou quando é que a Entre Idades te telefona (– à tarde), então já tens uma boa notícia para lhe contar. Estou mais tranquila porque está tudo bem com meu exame.

– No início disto tudo, sentia-me estranha, era tudo estranho, e eu não conseguia fazer nada em casa. Já sei que há tarde temos encontro marcado e, desde que conversamos sinto-me mais calma, tranquila. Não sinto aquela inquietação cá dentro.

– Que Deus lhes pague pelo bem que têm estado a fazer. É bom saber que ainda há pessoas que se preocupam com o outro. Bem-haja para vocês.

– Eu já tenho apoio com fornecimento de refeição da instituição, onde ia almoçar diariamente. Também já vi no correio a informação que a junta ajuda no transporte dos bens essenciais, mas mesmo assim continuem a ligar-me, gosto muito de falar convosco.

 

Na passada quarta e quinta-feira reforçamos os contactos devido à aproximação do período da Páscoa.

Como iria será vivida a sua Páscoa?

– Uma tristeza, passar a melhor altura do ano sozinha. Mas Deus, nosso Senhor há-de ajudar-nos e devolver-nos a paz.

– Eu aceito as coisas, tem que ser, tem que ser. Mas, sinceramente ainda não sei. Falo diariamente com os meus filhos, e eles vêm e ficam à porta a perguntar se eu preciso de alguma coisa.

– Eu não penso no futuro, porque o futuro é incerto.

– Já estou habituada a passar a Páscoa sozinha.

– Sozinha com o meu marido. É a altura que mais gosto do ano, é uma celebração que me diz muito. Ter de a passar sem os meus filhos e sem os meus netos dá-me muita angústia. Mas também sei que eles estão a proteger-me e tenho de lhes agradecer por isso. Vamos falar muito ao telefone. Gostava de perceber deste aparelho e vê-los por aqui. Mas ninguém previa isto e não deu tempo de aprender. Mas pode ter a certeza que vou aprender quando isto acabar.

– Tinha o hábito de fazer borrego no forno com batatinhas. Mas nem me apetece. O borrego vem acompanhado do convívio e este ano não há convívio. Se calhar faço outra coisa e passa o dia, passa a romaria.

– Vai ser um dia igual como os outros, nem é pelo folar, que eu não aprecio muito. É por passar longe da família.

– Vai ser passado em casa sozinha com o meu marido. Não vai haver doces porque ele é diabético. Mas fazemos videochamada com a família.

– Sabe menina, eu já não ligo à Páscoa. Da última vez que fui às compras, comprei um pato. Vou fazer cá à minha moda e depois os meus filhos vêm buscar para a Páscoa deles. As minhas meninas (netas) gostam muito e eu cá me vou entretendo.

– Há que manter a tradição e por isso vou cozinhar borrego no forno com batatas. Haverão amêndoas também, para assinalar o dia.

– Sabe menina, eu não ligo muito, porque como em nenhum momento, consigo juntar a família toda, não faço grande festa.

– Vai ser uma Páscoa diferente do normal. Mas tem de ser, desde que haja saúde é o mais importante.

– Uma boa Páscoa para mim é ter saúde, eu e os meus filhos. Isso é que é o mais importante. Depois disto tudo passar fazemos uma festa grande para matarmos as saudades.

– Este ano a Páscoa é assim, mas hão-de vir dias melhores e outros momentos para festejarmos. Vou cozinhar coelho e amêijoas e vou colocar uma toalhinha melhor na mesa, para assinalar o dia. Já passei por muito, superei tudo e isto também vai ser assim. Agradeço muito, muito o vosso cuidado. Envio uma amêndoa do coração de cada cor para vós: de amor, de gratidão, de carinho. Por tudo o que têm feito por nós.

 

Desde 16 de março que temos vindo a contactar as pessoas idosas para aferir a necessidade de ajuda nesta fase, relembrar as recomendações das autoridades de saúde, dar suporte emocional e psicossocial, e ainda, encontrar em conjunto atividades de ocupação.

Desde essa data e até dia 13 de abril, sabia que:

  • contactamos 190 pessoas idosas;
  • realizamos 1113 contactos de proximidade, numa média de 57 contactos por dia;
  • alguns utentes são contactados diariamente ou mais que uma vez por dia, sempre que avaliamos ser necessário;
  • 145 pessoas têm as necessidades asseguradas;
  • 44 pessoas precisam de ajuda (para a compra de alimentos ou ida à farmácia) e encontram-na na família, vizinhos, amigos ou outra instituição;
  • 3 pessoas precisaram da nossa ajuda: na compra de alimentação, na configuração do tablet para poder falar com a família por videochamada e aferir se a pessoa se encontrava bem, pois já não atendia o nosso contacto há vários dias (em articulação com o Policiamento de Proximidade);
  • na maior parte dos casos, as principais ações foi dar suporte emocional e psicossocial, fornecer atividades de ocupação/estimulação e aconselhar para as recomendações das autoridades de saúde;
  • 157 pessoas respeita o isolamento social e 173 pessoas tenta ocupar o seu tempo com atividades em casa;
  • no decorrer dos contactos, verificamos que 40 pessoas sentem-se preocupadas ou apreensivas, 11 zangadas, com tristeza e solidão, 16 sentem-se ansiosas, com medo ou angústia, 6 pessoas desvalorizam a situação, 58 pessoas sentem-se tranquilas e 34 conformadas ou com esperança.

Esta atividade insere-se no âmbito Lxiis+, um projeto Entre Idades e que conta com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.

LXIIS+

logotipo CML
Com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa

 

Vamos ser todos agentes de saúde pública.

Vamos olhar pelos nossos.

Estamos juntos.

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